Pacote eleitoral pode amenizar freada na economia prevista para o 2º semestre

Expectativa é que próximos 12 meses sejam marcados por estabilidade ou contração da atividade

Folha de São Paulo – 2.jul.2022 às 13h00 – Eduardo Cucolo

O pacote de medidas propostas pelo governo para segurar a inflação e a queda na renda no período eleitoral pode amenizar a intensidade da desaceleração da economia prevista para os próximos meses.

A expectativa é que o país entre em um período de forte freio da atividade, com trimestres marcados por estabilidade ou contração.

Analistas apontam para o risco de uma desaceleração mais intensa da economia mundial, com possibilidade de recessão em alguns países, como os EUA, e uma queda mais forte dos preços das commodities exportadas pelo Brasil.

Internamente, devem pesar no próximo ano o fim das medidas de redução de impostos e sustentação de consumo, em um momento em que os efeitos da alta da taxa básica de juros se farão sentir de maneira mais intensa.

O Itaú Unibanco, por exemplo, espera dois trimestres de queda do PIB (Produto Interno Bruto) na segunda metade de 2022. O Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da FGV) e a gestora Kairós Capital também projetam um PIB negativo na média do segundo semestre. O Santander Asset avalia a possibilidade de duas quedas trimestrais ao longo dos próximos 12 meses e dois trimestres de estabilidade.

Esses cenários não contemplam uma recessão profunda nos EUA, fator que jogaria as estimativas para baixo. Também não incorporam as novas medidas de estímulo para tentar melhorar o desempenho eleitoral do governo Bolsonaro, que estão em discussão no Congresso.

Na semana passada, o Congresso aprovou PEC (proposta de emenda à Constituição) que dá aval ao governo para turbinar programas sociais, como a ampliação do Auxílio Brasil para R$ 600 até o fim do ano, aumento no valor do Auxílio Gás e ajuda para caminhoneiros, num valor total de R$ 41,25 bilhões. O texto vai à Câmara.

‘MINIBOOM’ DE CRESCIMENTO
Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre, afirma que a continuidade da reabertura da economia e medidas de estímulo ao consumo, como o saque do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e a antecipação do 13º do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), provocaram um “miniboom” de crescimento nos primeiros seis meses do ano, mas que esses fatores se esgotaram.

Agora, devem prevalecer os efeitos do aumento da taxa básica de juros e a piora no cenário internacional. Novas medidas em discussão no Congresso podem ajudar no curto prazo, mas não devem evitar uma queda no PIB do terceiro trimestre, afirma.

“O governo está fazendo de tudo para atenuar essa desaceleração forte no terceiro trimestre. Esses auxílios dão algum alívio no curto prazo. Mas a conta acaba sendo salgada para o ano que vem, porque vai ter mais inflação e juros maiores por mais tempo”, diz Matos, que projeta crescimento do PIB pouco acima de 1% neste ano e de 0,3% no próximo, com possibilidade de estagnação em um cenário externo mais desfavorável.

Em seu relatório mais recente, a OCDE revisou a projeção de crescimento global em 2022 de 4,4% para 3%, diante da rodada de aumento de juros em diversas economias. A estimativa para 2023 está em 2,8%.

Destacam-se os desempenhos modestos dos EUA (1,2%) e nos países da zona do euro (1,6%). Entre os emergentes, China e Índia estão entre aqueles que devem sustentar um ritmo maior de crescimento, enquanto Brasil e Rússia puxam a média para baixo.

Julia Gottlieb, economista do Itaú Unibanco, afirma que o indicador de atividade da instituição mostra que a economia brasileira continuou a crescer no segundo trimestre, mas em ritmo menor do que no primeiro, dando início ao processo de desaceleração.

A instituição projeta queda de 0,4% do PIB tanto no terceiro como no quarto trimestres, cenário que pode ser mais favorável a depender do pacote de medidas de estímulo em discussão, como o aumento do Auxílio Brasil.

“Para o segundo semestre, a gente espera que a atividade econômica perca força. Basicamente por dois motivos: a queda na renda disponível das famílias e o efeito da política monetária”, afirma Gottlieb.

COMMODITIES PODEM AJUDAR BRASIL, MESMO COM RECESSÃO NOS EUA ​
Embora avaliem que é alta a chance de os EUA entrarem em recessão nos próximos 18 meses, os preços das commodities não devem desabar e podem ajudar a evitar uma possível recessão no Brasil.

Os contratos nos mercados futuros apontam que os preços devem continuar elevados por alguns meses, para depois recuarem para patamares ainda superiores aos anteriores à pandemia.

Esse cenário pode mudar, no entanto, caso se confirme uma recessão nos EUA e a China tenha um desempenho abaixo do estimado atualmente, afirma Marco Maciel, da Kairós Capital.

A partir de um modelo de projeção, ele estima 36% de chances de uma recessão na economia norte-americana. Em recessões anteriores, o mesmo modelo apresentava probabilidades em torno de 40% 12 meses antes.

“Vai ter recessão nos EUA, o problema é quanto tempo dura e, mais importante, em quanto tempo e como se dará a recuperação”, afirma Maciel, que prevê uma recuperação rápida da economia norte-americana. Para ele, o principal motor da desaceleração no Brasil deve ser mesmo o nível elevado da taxa básica de juros.

Eduardo Jarra, chefe de economia e estratégia da Santander Asset, também não descarta uma chance considerável (50%) de recessão nos EUA, mas avalia que a China deve superar as dificuldades sanitárias e seguir com a normalização da atividade econômica. Esse ainda seria um cenário positivo para os produtores de commodities.

Jarra afirma que, nos próximos 12 meses, a economia brasileira pode se defrontar com uma recessão técnica, termo utilizado para definir dois trimestres de queda do PIB, e que o fator fundamental para isso será o nível elevado da taxa básica de juros.

Em um cenário alternativo, com os EUA em recessão e a China voltando a ter dificuldade com a Covid, o fator externo tende a pesar tanto quanto a política monetária para jogar a economia nacional mais para baixo.

Por outro lado, há alguns fatores que podem contribuir para um cenário mais positivo, como uma surpresa inflacionária que permita ao Banco Central cortar juros mais cedo, preços de commodities elevados por mais tempo e uma redução da incerteza fiscal no Brasil.

“Estamos chegando próximo da fronteira após um período positivo para a nossa economia, especialmente por causa de alguns fatores que vão se esgotando”, afirma o economista.

“A gente viu um primeiro semestre que foi dinâmico para a economia brasileira. O segundo semestre e o primeiro do ano que vem vão ter um retrato diferente, de economia desacelerando, sofrendo o efeito da política monetária, das condições financeiras mais apertadas, e com isso a gente tem uma fase bastante diferente.”

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