Copom deve manter Selic em 15% apesar de PIB fraco, mas abrir espaço para corte em 2026
- Apostas para início do ciclo de queda de juros estão divididas entre janeiro e março
- Se expectativas se confirmarem na próxima quarta (10), novas críticas devem atingir BC
O Copom (Comitê de Política Monetária) deve encerrar 2025 com a taxa básica de juros parada em 15% ao ano, apesar do fraco desempenho do PIB (Produto Interno Bruto), mas flexibilizar o discurso e abrir espaço para queda da Selic em 2026. Essa é a expectativa dos economistas ouvidos pela Folha às vésperas da última reunião do ano.
Enquanto a manutenção da taxa no atual patamar é a projeção unânime dos agentes econômicos para a decisão da próxima quarta-feira (10), as apostas para o início do ciclo de cortes de juros estão divididas entre janeiro e março do próximo ano.
Se as expectativas se confirmarem, novas críticas de membros do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de empresários devem atingir o BC.
Para o ministro Fernando Haddad (Fazenda), o patamar da Selic hoje —maior nível em quase duas décadas— é insustentável e o momento atual permitiria a redução da taxa básica. O discurso de Haddad ecoa a pressão feita por Lula —responsável pela indicação de Gabriel Galípolo ao comando da autarquia.
Para Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e presidente do conselho da Jive Investments, o cenário mais provável hoje é que a redução da Selic comece na largada de 2026. A tendência, segundo ele, é que a comunicação desta reunião já aponte nessa direção.
Um dos principais fatores para essa estratégia, na visão do economista, é o cenário de desaceleração da atividade econômica. Segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o PIB do Brasil avançou 0,1% no terceiro trimestre deste ano na comparação com os três meses anteriores.
Ele aponta que, ao segurar a Selic em 15% ao ano ao longo do segundo semestre, a autoridade monetária tentou esfriar a atividade econômica para controlar a inflação, visto que a demanda mais contida tende a reduzir a pressão sobre os preços.
“De fato, estamos com a economia, principalmente a parte mais sensível a taxa de juros, mais comedida”, diz Figueiredo, ressaltando que o setor de serviços mostrou estabilidade.
O ex-diretor do BC vê espaço para cortes de juros até meados do próximo ano. “Perto de eleição, o ideal é o Banco Central não ter que fazer nada. Assim, ele provoca menos turbulência ou qualquer tipo de interpretação sobre estar ajudando ou atrapalhando [o candidato governista]”, diz.
Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter, considera que chegou o momento de o Copom suavizar o tom e parar de adiar a discussão sobre corte de juros. Na avaliação dela, houve uma melhora expressiva nas últimas semanas no cenário para a inflação, o que dará espaço para o colegiado do BC iniciar o processo de flexibilização em janeiro.
Desde a reunião anterior, em novembro, a projeção para a inflação coletada pelo boletim Focus para este ano recuou para dentro do teto da meta, a 4,43%. Para 2026, a estimativa caiu ligeiramente, de 4,2% para 4,17%, e, para 2027, se manteve em 3,8%.
Devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia, o BC toma suas decisões olhando para o segundo trimestre de 2027.
“A gente viu um recuo das expectativas para 2025 e não tanto para 2026. Acho que existe um conservadorismo para essas revisões com receio da situação fiscal”, afirma Vitória. “Isso, para nós, mostra que tem espaço para as expectativas caírem mais.”
No mercado, há um debate sobre a aparente contradição do uso da expressão “bastante prolongado” em referência ao período que o Copom pretende manter os juros no nível atual e a possibilidade de cortar a Selic a partir de janeiro. Para jogar luz à discussão, Galípolo afirmou recentemente que essa contagem de tempo não zera a cada reunião do colegiado.
O dólar fechou na sexta em disparada de 2,33%, cotado a R$ 5,434, após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ter anunciado ter sido o escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como candidato para disputar a Presidência da República nas eleições do ano que vem.
Para Sergio Werlang, ex-diretor do BC e professor de economia da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV EPGE), o episódio antecipou um risco que previa para 2026 ao desencadear uma desvalorização cambial. Como consequência, ele espera uma postura mais conservadora do Copom.
“Isso atrasa muito a queda de juros. Eles [membros do Copom] vão atrasar, com mais tranquilidade, para janeiro. Não teria jeito de baixar os juros agora. E, mesmo com a economia desacelerando, isso vai fazer o Banco Central ser mais cauteloso”, afirma.
O ex-diretor do BC, contudo, pondera que, se o comitê atrasar demais o início do ciclo de queda da Selic, será necessário ser mais agressivo nos cortes depois.
“Se deixarem esse corte para março, eles [membros do Copom] vão ter que cortar 0,5 [ponto percentual] ou 0,75 [p.p.]”, afirma.
“Eles podiam preparar agora o terreno para, na próxima reunião, fazer um corte de 0,25 [p.p.l] ou 0,5 [p.p.], dependendo de como estiver a atividade econômica. Se estiver desacelerando muito, seria recomendável cortar mais do que 0,25 [p.p.]”, acrescenta.
O resultado mais fraco do PIB é visto, por ele, como um “sinal amarelo” para a condução da política de juros, mas Rostelato defende que o Copom considere um conjunto mais amplo de informações e não reaja a um único dado.



