Ex-CEO da Stellantis prevê que China comprará maioria das montadoras europeias
Sarah White – Paris | Financial Times
O ex-CEO da Stellantis Carlos Tavares afirmou que as montadoras da China virarão as “salvadoras” das fábricas e dos empregos europeus, em uma tomada gradual que acelerará o fim de alguns fabricantes ocidentais.
O ex-executivo de marcas como Jeep e Peugeot traçou um quadro sombrio especialmente para os grupos automotivos europeus, enquanto lidam com regulamentações rigorosas de emissões, a guerra comercial global e a mudança de políticas sobre carros elétricos.
Tavares disse ao Financial Times que esse impacto ocorrerá nos próximos 10 a 15 anos e parte dele será pelas ações das montadoras chinesas, que em busca de alvos para aquisição, avançarão ainda mais na Europa, acumulando participações de capital ou comprando fábricas à beira do fechamento.
“Há muitas oportunidades interessantes sendo abertas para os chineses. No dia em que uma montadora ocidental estiver em sérias dificuldades, com fábricas à beira do fechamento e manifestações nas ruas, uma montadora chinesa virá e dirá ‘eu assumo e mantenho os empregos’, e serão considerados salvadores”, avaliou Tavares.
O executivo de 67 anos assinou um acordo com a fabricante chinesa Leapmotor, adquirindo uma participação de 20% no grupo e ajudando-a a entrar em mercados internacionais. Ele afirmou que estava ciente de que a Leapmotor tinha suas próprias motivações para entrar na parceria.
“A razão é simples, é que eles querem nos engolir algum dia”, afirmou o executivo, revelando que havia sido abordado por várias empresas chinesas para dirigir ou aconselhar seus negócios.
A BYD e outras marcas chinesas têm aumentado rapidamente sua participação de mercado no Reino Unido e em outros países europeus com veículos elétricos e híbridos acessíveis e avançados, apesar das tarifas de importação mais altas impostas por Bruxelas.
A francesa Renault também se associou à Geely no negócio de motores de combustão interna, enquanto a Nissan afirmou que sua parceira chinesa Dongfeng poderia começar a produzir em sua fábrica de Sunderland, no Reino Unido.
Tavares deixou a empresa que ajudou a criar em uma megafusão de US$ 50 bilhões entre a francesa PSA e a italiana Fiat em 2021, após um colapso nas vendas tanto na Europa quanto nos EUA.
As dificuldades na Stellantis destacaram os debates cada vez mais conflituosos que pesam sobre os fabricantes, à medida que alguns atrasam a mudança para veículos elétricos, prejudicados pelos altos custos e pelo ressurgimento dos veículos a gasolina nos EUA sob o presidente Donald Trump.
O executivo português, que construiu uma carreira na França primeiro na Renault e depois no comando da fabricante da Peugeot, PSA, disse que sua insistência em prosseguir com a transição para veículos elétricos imposta pela UE lhe custou o emprego.
As montadoras europeias estão fazendo forte lobby para permitir que outras tecnologias, como híbridos, sejam vendidas após 2035. “Quem está responsabilizando a UE pelos 100 bilhões de euros em investimentos que não serão utilizados? Ninguém”, comentou Tavares.
Ele previu em suas memórias recém-publicadas que apenas cinco ou seis montadoras sobreviverão globalmente, começando com a Toyota do Japão, a Hyundai da Coreia do Sul, a BYD da China e “provavelmente” outra empresa chinesa como a Geely. Ele também colocou em dúvida o futuro da Stellantis e previu que a Tesla perderá para rivais chineses.
Escrito em francês e com título que se traduz como “Um piloto na tempestade”, o livro dedica um capítulo inteiro à defesa de sua remuneração na Stellantis, que provocou a ira dos sindicatos e até dos acionistas, especialmente quando atingiu 36,5 milhões de euros em 2023.
A alemã Volkswagen representava a “incapacidade de mudança” da Europa, enquanto a Tesla acabaria “completamente ultrapassada pelos fabricantes chineses”, com o chefe Elon Musk provavelmente mudando para outras atividades, de acordo com o pensamento do ex-CEO da Stellantis.
Tavares disse ao FT que a Stellantis foi “estrategicamente criada de forma perfeita para a globalização”, mas seu conselho agora teria que decidir se essa ainda era a abordagem certa.
Ele disse que argumentaria que sim —embora o grupo tivesse três fábricas a mais na Europa. A Stellantis recusou-se a comentar.
O ex-executivo, que está investindo em negócios em seu país-natal, escreveu que só voltaria à indústria automobilística se tivesse uma participação grande o suficiente em qualquer empresa que estivesse dirigindo.



