Em sessão volátil, dólar bate em R$ 6,30 e tem forte queda após dois leilões do BC

Intervenções injetaram US$ 8 bi no mercado nesta manhã; investidores seguem atento à tramitação do pacote fiscal no Congresso

Tamara NassifSão Paulo
O dólar apresenta forte queda nesta quinta-feira (19) após dois leilões realizados pelo BC (Banco Central). A autoridade monetária vendeu mais US$ 8 bilhões para o mercado na modalidade à vista, ou seja, sem compromisso de recompra.

O mercado, em paralelo, segue atento à tramitação do pacote fiscal do governo no Congresso Nacional e, no exterior, repercute o corte de juros do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) da véspera.

Às 12h05, a moeda norte-americana perdia 1,75%, cotada a R$ 6,157, em sessão marcada por alta volatilidade. Na máxima do dia, chegou a R$ 6,301. Já a Bolsa subia 0,42%, aos 121.285 pontos.

Os dois leilões realizados pelo BC nesta manhã se somam a uma sequência de intervenções da autoridade monetária desde a semana passada. Foram nove ao todo, somando mais de US$ 20 bilhões injetados no mercado.

“O primeiro, a princípio, não surtiu o efeito esperado. Com isso, o BC fez o segundo leilão, que garantiu uma apreciação do real”, diz André Valério, economista sênior do Inter.

Os leilões são intervenções do BC no câmbio. Na prática, eles servem para aumentar a quantidade de dólares disponíveis para os investidores, seguindo a lei da oferta e demanda. Ou seja, quanto mais moeda puder ser comprada, menor vai ser a cotação dela.

“As intervenções do BC se justificam pelo excesso de volatilidade e pelo forte fluxo de saída de dólares. Nos dez primeiros dias de dezembro, o fluxo de saída foi de US$ 6,79 bilhões, bem acima da média histórica para esse período, portanto o leilão é uma solução para prover esse fluxo e impedir uma desvalorização desordenada do real.”

As intervenções têm contido a disparada do dólar nos últimos dias, oriunda da crescente desconfiança do mercado quanto à capacidade do governo de equilibrar as contas públicas. Só em dezembro, a moeda norte-americana acumula alta de 4,45% em relação ao real. No ano, registra valorização de 29%.

O movimento acontece em meio à tramitação do pacote de corte de gastos do ministro Fernando Haddad (Fazenda) no Congresso Nacional. A Câmara dos Deputados aprovou a primeira fatia do projeto na terça, mas, na quarta, desidratou algumas medidas.

A Casa decidiu dar aval ao bloqueio de apenas parte das emendas parlamentares para cumprir os limites do arcabouço fiscal. A emenda, apresentada de última hora pelo líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), prevê que o bloqueio de até 15% das emendas valerá apenas para as verbas não impositivas.

As outras duas partes do pacote tiveram a votação adiada para esta quinta. O ajuste fiscal proposto por Haddad ainda inclui uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que mexe no critério de concessão do abono salarial (espécie de 14º salário pago a parte dos trabalhadores com carteira assinada) e busca extinguir de vez com os supersalários na administração pública.

O plenário da Câmara chegou a iniciar a votação da PEC na quarta, mas precisou suspender os trabalhos diante de derrota para o governo. No fim da noite, um requerimento prévio à apreciação do mérito da proposta teve apoio de apenas 294 deputados no plenário, o suficiente para aprová-lo, mas um número abaixo dos 308 requeridos para uma mudança constitucional.

Diante do termômetro desfavorável, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), encerrou os trabalhos e convocou nova sessão para esta quinta.

O Congresso corre contra o tempo na tentativa de concluir a apreciação dessas medidas ainda esta semana, antes do início do recesso parlamentar na sexta-feira. Entre os agentes financeiros, o entendimento de que o pacote dificilmente será votado ainda em 2024 tem ganhado força.

“Há uma piora na percepção de risco do nosso país, tanto por conta da questão fiscal, quanto pelos desencontros no Congresso. Isso tem afetado a visão do mercado em relação ao governo e criado uma crise institucional, o que se reflete no câmbio”, afirma Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank.

Mas, mesmo que o pacote seja aprovado, a conclusão é que ele ainda não é o suficiente para estancar a crise das contas públicas.

“O pacote é medíocre e insuficiente. O governo vai ter que apresentar medidas adicionais para tentar reancorar as expectativas que foram desancoradas por conta do próprio governo. Ele criou a situação atual com uma comunicação truncada na apresentação do pacote, e foi uma grande frustração. Caso aprovado, parte do problema será endereçado, mas ainda falta mais”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.

Já na cena internacional, os investidores repercutem o corte de 0,25 ponto do Fed sobre a taxa de juros dos EUA, agora na banda de 4,25% e 4,50%. Ainda que tenha vindo exatamente em linha com as expectativas do mercado, não foi uma escolha unânime entre os diretores da autarquia: um deles votou pela manutenção da taxa.

O Fed ainda projeta que a taxa terminal de 2025 será de 4% —ou seja, que haverá apenas 0,50 ponto de redução.

Em entrevista coletiva após a decisão, Jerome Powell, presidente da autarquia, observou que o ritmo mais lento dos cortes projetados para o próximo ano refletia leituras de inflação mais altas em 2024.

“Deste ponto em diante, é apropriado avançar com cautela e buscar o progresso da inflação… a partir de agora, estamos em uma posição em que os riscos estão equilibrados”, disse Powell.

A sinalização fez a moeda disparar globalmente, com investidores precificando um dólar ainda mais forte no próximo ano em meio às possíveis políticas econômicas do presidente eleito Donald Trump

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