Nov18

Indústria brasileira é responsável por mais de 40% das importações de pneus de carga no Brasil

A indústria brasileira de pneus elevou suas importações em mais de 40% neste ano. Entre janeiro e agosto os fabricantes nacionais de pneus já importaram mais de 670 mil pneus de carga – usados para o transporte rodoviário e urbano -, o que representa uma participação média de 43,5% sobre todas as importações de pneus realizadas pelo Brasil.

No mesmo período do ano passado os fabricantes nacionais haviam importado mais de 463 mil unidades e detinham uma participação de 34,1% das operações, o que aponta um salto de 9,4 pontos percentuais sobre os primeiros oito meses de 2013.

Esses dados fazem parte de levantamento realizado pelo Departamento de Economia da ABIDIP (Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Pneus) e revelam que os fabricantes nacionais de pneus – um dos setores mais críticos em relação à importação de bens e produtos -, não apenas vêm elevando os percentuais de bens ‘importados’ em seu portfólio, como vêm praticando aquilo que tanto combatem: um possível dumping em suas importações.

O levantamento mostra também que o súbito aumento da importação pela indústria brasileira de pneus não se reflete em preços menores ao consumidor. Pelo contrário, os pneus de carga, na medida 295, comercializados pela Michelin apresentaram aumento médio de 5% desde janeiro e os da Pirelli e Bridgestone, sofreram aumentos médios de 2,80% e 2,99%, respectivamente.

Esses percentuais foram obtidos em pesquisa realizada pelo Departamento de Economia da ABIDIP junto a transportadoras e frotistas, sendo que o mapeamento das importações de pneus mostra que nos primeiros oito meses deste ano os percentuais de crescimento das importações foram maiores para a Continental, Goodyear e Michelin, sendo a Sumitomo/Dunlop a maior importadora líquida de pneus do mercado brasileiro.

Em média, a Continental ampliou suas importações em 227% no período de janeiro a agosto deste ano, ante a mesma base de comparação do ano passado. Em média, a Goodyear elevou suas importações em 106%, a Michelin em 89% e a Pirelli em 79%.

A única empresa produtora de pneus com fábrica no Brasil que reduziu as importações no período foi a Bridgestone. Em média, a empresa reduziu suas importações em 73% no período apurado.

O caminho inverso ao adotado pela Bridgestone está presente nos números da Sumitomo/Dunlop. De cada 10 pneus importados pela indústria brasileira de pneus entre janeiro e agosto deste ano 3,6 foram comprados pela Sumitomo/Dunlop, 2,9 pela Michelin, 1,8 pela Goodyear e 1,0 pela Pirelli.

“Os números apresentados mostram no mínimo uma situação paradoxal”, afirma o diretor executivo da ABIDIP, Milton Favaro Júnior.

“De um lado a indústria brasileira de pneus, que desde 2008 instaurou uma verdadeira guerra contra o pneu importado e contra importadores de pneus, através de processos sucessivos por dumping, agora mostra que de cada 10 pneus que são importados pelo Brasil, 4,4 pneus são importados por quem tem fábrica aqui. Essa é uma situação paradoxal na medida em que eles atacam a importação e os importadores independentes. Dizem que quem importa pratica dumping, sendo que eles mesmos, possivelmente, podem estar praticando isso”, afirma.

Uma questão relevante nesse contexto é que o governo brasileiro – a pedido dos produtores nacionais de pneus – está avaliando a possibilidade de ampliar os processos por dumping sobre seis países que vendem pneus de carga ao Brasil. Até agora apenas os produtos oriundos da China tinham um direito antidumping aplicado.

“O governo brasileiro está prestes a levar o setor a uma catástrofe anunciada, prevista e antecipada pela ABIDIP, que é a possibilidade de transformar as importações de pneus em monopólio da indústria nacional e a destruição da competitividade e liberdade de preços. Da forma como está se desenhando o processo, apenas a indústria nacional poderá importar – de suas fábricas afiliadas – e ao preço que quiser e isso é monopólio. O governo corre o risco de destruir o mercado brasileiro de pneus de carga”, afirma Favaro Júnior.

Segundo o diretor executivo da ABIDIP se for levado em conta o peso do transporte rodoviário de carga na economia, o impacto será ainda maior e perigoso e quem vai pagar a conta é o consumidor.

Dados da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) apontam que o transporte rodoviário participa com 61,1% na matriz de transportes do Brasil, ante 20,7% do transporte ferroviário, 13,6% do aquaviário, 4,2% do dutoviário e 0,4% do aéreo.

“São aproximadamente 2,4 milhões de caminhões, 493 mil cavalos mecânicos, 962 mil reboques e 723 semirreboques, além de 105 mil ônibus municipais e intermunicipais rodando no País. Tudo isso necessita de pneus para movimentar mercadorias, girar a economia e a indústria nacional de pneus quer monopolizar isso”, destaca Favaro Junior.

Para entender

Pneus para uso em caminhões e ônibus (nos aros 22 e 22,5) já foram alvo de medidas por dumping em 2008 contra produtos vindos da China. Desde então o governo vem cobrando uma taxa adicional por quilo de pneu para que os mesmos possam ser vendidos no Brasil.

O que o governo avalia hoje, a partir de solicitação da indústria nacional de pneus, é a possibilidade de aplicar dumping definitivo e provisório sobre outros seis países que exportam pneus para o Brasil.

“O governo está fazendo investigação para uma possível aplicação de dumping sobre seis países que exportam pneus de carga para o Brasil. Essa investigação termina no ano que vem, mas pode ser aplicado um dumping provisório ainda este ano. Essa é, possivelmente, a real intenção das indústrias nacionais e tal fato pode causar grande problema ao mercado. O que não dá para entender é que a maioria desses países investigados exporta com preços maiores que os preços pagos pela indústria nacional em suas importações. Um caso a ser avaliado é o do Grupo Sumitomo/Dunlop que registra preços inferiores até comparados com preços de pneus importados da China. Detalhe: o Japão não tem dumping, ainda!”

Segundo Milton Favaro Junior o preço praticando pela Sumitomo/Dunlop é tão desproporcional que até mesmo a indústria nacional pediu investigação por dumping contra a Sumitomo/Dunlop, no Japão.

“A incoerência de tudo isso é que a mesma indústria que pede proteção contra a importação é a mesma que importa 44% dos pneus que são vendidos no Brasil. A adoção de medidas antidumping é para proteger uma fabricação nacional. Se a própria indústria importa quase metade dos pneus de carga que entram no Brasil é ilógico pedir esse tipo de proteção. Estamos caminhando para um monopólio da importação”, diz o diretor executivo da ABIDIP.

Entre as questões apuradas pelo Departamento de Economia da ABIDIP, uma das mais interessantes é que dentro das importações realizadas pelas fabricantes nacionais há indícios da prática de dumping, algo que a própria indústria vem travando uma verdadeira batalha desde 2008.

Desde então já foram abertos quatro processos do gênero, a seguir:

1.Resolução Camex nº 33, de 09 de julho de 2009, contra pneus de carga oriundos da China. A medida entrou em vigor no dia 18 de junho de 2009 e é válida até 18 de junho de 2014;

2.Resolução Camex nº 48, de 08 de setembro de 2009, contra a importação de pneus de passeio oriundos da China;

3.Resolução Camex nº 56, de 29 de julho de 2013, que aumentou o direito antidumping aos pneus de passeio oriundos da China; 

4.Resolução Camex nº 34, de 20 de julho de 2012, com a intenção de investigar a prática de dumping nas importações de pneus de passeio oriundos da Coreia do Sul, Tailândia, Taipé Chinês e Ucrânia; 

5.Resolução Camex nº 28, de 10 de junho de 2012, com a intenção de investigar a prática de dumping nas importações de pneus de carga oriundos da Coréia do Sul, Taipé Chinês, Tailândia, África do Sul, Rússia, Japão; 

Em 29 de julho de 2013, a Camex encerrou o processo de revisão e prorrogou pelo prazo de cinco anos o direito antidumping contra a importação de pneus para veículos de passeio de construção radial originários da República Popular da China. Essa medida foi adotada através da Resolução nº 56, de 24 de julho de 2013.

“Proteger a indústria nacional é importante para qualquer país que pratique politicas públicas, tributárias e até mesmo protecionistas, mas trabalhar para ajudar a criar um monopólio na importação e desvirtuar informações ao cidadão é, no mínimo, jogar um jogo baixo e autoritário”, afirma Favaro Júnior.

O diretor executivo da ABIDIP aponta que nas importações realizadas pelas empresas fabricantes de pneus instaladas no Brasil também há a possibilidade de ocorrência quando comparados os preços pagos pela importação da indústria nacional com algumas importações independentes, fato que causa estranheza em relação aos rumos que o governo brasileiro venha a dar no futuro sobre a questão.

Impacto no custo do frete

Um dos maiores reflexos da medida em estudo pelo governo federal é o impacto sobre o aumento de custos sobre os fretes praticados por transportadoras e frotistas.

“O que está em jogo no momento é algo muito delicado e representa um prejuízo muito grande ao consumidor, uma vez que os pneus de carga no Brasil têm impacto direto na economia, no preço do frete, no custo dos produtos, na inflação, pois o pneu é um dos três principais custos de uma transportadora”, diz Favaro Júnior.

Tradicionalmente, o primeiro custo de uma empresa de transportes é o gasto com combustível, seguido pela folha de pagamentos, vindo o custo com pneus na terceira posição.

Segundo Favaro Júnior, a adoção por antidumping sobre os pneus de carga importados da China desde 2008 já levou muitas marcas a ‘sumirem’ do mercado brasileiro.

“O governo quer aplicar as mesmas medidas já adotados contra a China sobre outros seis países, uma ação que inviabilizaria o fornecimento de pneus ao Brasil”, alerta o executivo.

“O que a sociedade brasileira não sabe é que as indústrias nacionais já são responsáveis por 44% das importações do setor, mas curiosamente os seis países indicados como novo alvo do governo federal não interferem nas importações da indústria brasileira de pneus, mas sim nos demais participantes do mercado, os importadores independentes. É como se houvesse uma importação saudável e correta feita pelos fabricantes de pneus nacionais e outra não saudável feita por importadores que não fazem parte do clubinho das ‘nacionais”, afirma.