May08

Indústria brasileira de pneus domina as importações no 1º trimestre

A importação de pneus, ‘problema’ apontado pela Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP) como o grande vilão e destruidor de empregos, torna-se o principal alvo de negócios da indústria nacional.

.De janeiro a março a indústria elevou importações em 140,4%;

.De cada 10 pneus importados no primeiro trimestre, 5,1 foram feitos pela indústria (que deveria produzi-los e não importá-los);

.A indústria bateu recorde de importação e também promoveu alta de preços: entre 3,0% e 3,5%, com pico de até 12%. Em 2013 já haviam aumentado preços em 12,7%;

.Enquanto a indústria aumentou suas importações em 140,4%, os independentes reduziram as suas em 17,4%;

A indústria brasileira de pneus nunca importou tanto como no primeiro trimestre de 2014: a expansão foi de 140,40%, para um total de 271.524 unidades trazidas de filiais do exterior para comercialização no mercado nacional.

“Os dados levantados pelo Departamento de Economia da Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus (ABIDIP) mostram que de cada 10 pneus importados entre janeiro e março deste ano, 5,1 foram trazidos pelas empresas que dizem produzir pneus no Brasil”, afirma o Diretor Executivo da Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus (ABIDIP), Milton Favaro Junior.

“Os números mostram que a indústria não tem capacidade para produzir pneus de carga, uma vez que importaram 51% dos pneus que deram entrada no mercado brasileiro neste ano. Isso mostra que a indústria ainda não entendeu que a frota brasileira dobrou nos últimos 10 anos, isso mostra que ela não consolidou e não concretizou os propalados projetos de investimentos acenados ao governo e, de forma monopolista, empreende processos por antidumping nas importações, sendo que ela mesma, a indústria, nunca importou tanto como neste primeiro trimestre”, relata.

Enquanto a indústria nacional ampliou suas compras no exterior em 140,4%, todos os importadores independentes juntos registraram recuo de 17,43% nas importações realizadas entre janeiro e março deste ano, para 258.883 unidades.

Segundo Milton Favaro Junior, um dos objetivos da importação de pneus é o de ampliar a concorrência ‘leal’, dotar o mercado de produtos de alta tecnologia – em detrimento do que é ofertado pela indústria local – e mais importante, trazer pneus a preços competitivos, que permitam reduzir o custo do transporte. “Para quem não sabe, depois do combustível e da folha de pagamentos, os pneus são a maior conta para uma empresa de transporte.”

“Veja que ao mesmo tempo em que a indústria amplia suas importações de pneus de carga em 140,40% no ano, ela também está promovendo uma mudança de tabela de preços que embute aumentos entre 3,0% e 3,5%, chegando a picos de 10% e 12%”, diz o Diretor Executivo da ABIDIP, ao destacar que em 2013 dados estatísticos apurados pelo Departamento de Estudos Econômicos e Custos Operacionais (Decope), da NTC&Logística, já detectaram aumento médio de 12,7% em pneus de carga na medida 275/80 22,5R.

“Se o governo entendesse que o objetivo do pneu importado é reduzir custos do transporte, da logística e do frete e não cobrasse o antidumping, os preços dos pneus importados poderiam ficar até 30% mais baratos”, afirma Favaro Júnior, ao chamar a atenção da Câmara de Comércio Exterior (Camex) - que decide no dia 18 de junho pela prorrogação ou pelo fim do processo por antidumping contra pneus oriundos da China, bem como a decisão pela abertura de antidumping contra pneus de carga oriundos da Coreia do Sul, Tailândia, África do Sul, Rússia, Taiwan e Japão.

O custo do pneu no transporte

Outro aspecto relevante destacado pelo executivo é o impacto do preço do pneu na cadeia de transportes no Brasil. Segundo a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), a frota brasileira de caminhões conta hoje com 1,2 milhão de unidades, cuja idade média é de 21 anos para motoristas autônomos e de 8,5 anos para empresas.

“Se desses 1,2 milhão de caminhões o custo com pneus pudesse ser reduzido em 30% quanto seria o ganho logístico, de barateamento do frete, de impacto menor na conta da inflação?”, indaga o Diretor Executivo da ABIDIP.

“Pela análise dos preços que são pagos pela indústria nacional - para importar um pneu de carga da medida 295, que é a mais usada no Brasil -, e comparando com pneus sul-coreanos - que pagam mais caro que as industriais nacionais para importar -, cabe uma pergunta. Como o pneu sul-coreano importado - que é adquirido a um preço mais alto na importação consegue chegar mais barato para as transportadoras? A resposta é simples: está na elevadíssima margem de lucro cobrada pelas empresas nacionais sobre os pneus que elas produzem aqui e sobre os pneus que elas importam. Se a indústria nacional reduzisse suas margens de lucros sobre um pneu na medida 295 - justamente o pneu que tem maior impacto na formação de preços do frete - isso teria um impacto direto no custo final do produto ao consumidor. Pneu mais barato, representa menor custo ao transportador, um frete menor e uma mercadoria mais barata nos supermercados. Imagine o impacto disso em um país onde cerca de 60% do transporte de mercadorias é feito por caminhões”, diz Milton Favaro Junior.

Em sondagem da ABIDIP junto a frotistas do Estado de São Paulo, constata-se que o custo por quilômetro rodado a partir de pneus importados garante uma redução de custos de até 30% para as transportadoras.

“Os preços são melhores que os cobrados pela Pirelli, Bridgestone, Goodyear e Continental e os importadores dão mais prazo. O pessoal da Sumitomo esteve aqui, ofereceram pneus importados diretamente do Japão a preços menores que os praticados pela indústria nacional e até mesmo por importadores com os quais operamos, mas os pneus Sumitomo não foram bem nos testes que realizamos e já tiramos da frota”, diz um gestor de uma transportadora composta por mais de 800 caminhões em São Paulo.

“É preciso aprender a trabalhar com o pneu importado. Ele roda menos, mas você precisa saber o momento certo de tirá-lo da frota para realizar a reforma desse pneu. Ao fazermos isso, estamos ganhando cerca de 30% na compra de um pneu novo e estamos dando até duas vidas nesses pneus, o que tornou nosso custo por quilômetro excelente e um preço de frete imbatível. Para conseguir isso sem o pneu importado só se pagássemos mais de R$ 1.300,00 por um pneu nacional”, diz outro gestor que administra frota com mais de 750 unidades.

“De novembro a janeiro a indústria nacional não aumentou o preço de algumas medidas de pneus, mas na planilha de controle que fechei em abril vejo aumentos em fevereiro e em março, entre 3,0% e 3,5%. Na planilha de maio, momento em que comprei mais de 100 pneus de carga, já recebi recados da indústria sobre nova tabela de preços a ser praticada neste mês e ela vem com aumentos de 10% a 12%, o que é um absurdo. Além do preço mais alto, os prazos de pagamento que eles nos dão não passam de 35 dias, contra até 90 dias que os importadores nos dão”, relata um terceiro gestor de frota ouvido pela ABIDIP.

Quem está importando e de onde?

“O governo brasileiro precisa entender que quem está importando pneus em excesso é a indústria brasileira de pneus, que ao invés de importar deveria estar investindo na expansão de suas fábricas que hoje contam com máquinas, processos e produtos obsoletos”, afirma o Diretor Executivo da ABIDIP, ao apontar a real origem das importações da indústria.

“A Sumitomo é a grande responsável pela inclusão do Japão no processo por antidumping que está em análise na Camex, a pedido da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP). Pneus Sumitomo, Dunlop e Falken estão vindo diretamente do Japão, além de marcas de segunda linha de sua fábrica na África do Sul. O Japão também é a fonte primária dos pneus importados pela Bridgestone”, diz Milton Favaro Junior.

“Além de ser importadora líquida de pneus, os preços que a Sumitomo/Dunlop vêm praticando são absurdamente baixos, o que mostra que uma indústria que diz estar investindo no Brasil, está, na verdade, pagando menos impostos e com clara conotação de antidumping. Espero que o governo aplique uma taxa por antidumping exemplar no Grupo Sumitomo para que eles parem de agir como estão agindo. Isso se chama concorrência desleal, algo que a ANIP quer tanto, mas que uma de suas associadas pratica a olhos vistos”, afirma.

França e Espanha são os grandes focos de concentração das importações que a Michelin vem realizando com as marcas Michelin e BF Goodrich, enquanto a Goodyear concentra seu foco nas importações da matriz nos Estados Unidos e na China. A Pirelli vem trazendo pneus de carga da Itália e a Continental da Alemanha.

De quanto foi o aumento nas importações no 1º trimestre:

  • Ø Sumitomo + 147,21%, para 110.118 pneus de carga;
  • Ø Michelin: + 125,73%, para 64.094 pneus;
  • Ø Goodyear: +100,66%, para 47.677 unidades;
  • Ø Pirelli: 269,23%, para 26.079 pneus;
  • Ø Bridgestone: +67,16%, para 15.151 unidades;
  • Ø Continental: + 6.904,17%, para 8.405 pneus de carga.

Mito e verdade

É muito comum a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP) dizer que o grande vilão da importação é a China. Com base em dados, vamos mostrar o que é mito e o que é verdade.

O grande mito - Todos os importadores independentes de pneus no Brasil juntos realizaram a importação de 65.275 pneus de carga da China entre janeiro e março deste ano. Esse número representa aumento de 22,61% sobre 53.238 pneus de carga importados no mesmo período do ano passado.

A grande verdade - A Sumitomo, sozinha, importou 110.118 pneus de carga (oriundos de suas plantas fabris no Japão e Tailândia). Só a Sumitomo trouxe de suas filiais 68,7% mais pneus que todos os importadores independentes importaram da China.

A Goodyear, sozinha, respondeu por 28% das importações de pneus da China entre janeiro e março deste ano. Foram 29.267 pneus de carga importados pela empresa. Isoladamente, a Goodyear é a maior importadora de pneus de carga da China, algo que a ANIP não diz.

Para entender

Há duas barreiras comerciais por antidumping no segmento de pneus de carga aplicadas pelo governo brasileiro a pedido da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP). A primeira surgiu em 18 de junho de 2009 e teve validade de cinco anos – vincendos agora, em 18 de junho de 2014.

Esse processo é exclusivo contra a importação de pneus da China, cuja análise da Câmara de Comércio Exterior (Camex) deve anunciar seu veredito nas próximas semanas. Aqui, a sobretaxa implícita por antidumping varia de US$ 1,12 a US$ 2,59 por quilo de pneu importado.

Outro processo – que corre em paralelo a esse – pede pela aplicação de antidumping contra a importação de pneus de carga oriundos da Coreia do Sul, Tailândia, África do Sul, Rússia, Taiwan e Japão.  

“O governo precisa analisar de forma mais ampla e aberta essa questão do antidumping dos pneus de carga. Se a importação é um problema para o país, para o emprego, para os investimentos, por que a indústria nacional passou a ser a grande importadora do mercado? Eles importaram 51% dos pneus que deram entrada no mercado brasileiro no primeiro trimestre. O que isso quer dizer? Que o setor está sucateado, que o setor não está investindo, que a indústria não tem capacidade de produção, que eles não têm produtos para oferecer localmente. Só que eles fazem isso ancorados sobre processos por antidumping contra os outros. Isso é oligopólio e deve ser investigado. As ações da Sumitomo, por exemplo, mostram claramente a prática de uma concorrência desleal dentro da própria indústria brasileira de pneus, dentro da própria ANIP e uma ação prejudicial a todo um segmento dos mais importantes para a economia brasileira, o de pneus.