Feb09

Importação de pneus de carga fecha 2016 com o pior resultado dos últimos 12 anos

As importações de pneus de carga (usados para equipar caminhões e ônibus), fecharam 2016 no pior resultado histórico dos últimos 12 anos. Com recuo de quase 50% sobre o ano anterior, balanço das operações disponibilizadas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) revela a realização de US$ 114 milhões em importações originadas a partir de 39 países. Comparativamente a 2015, o recuo foi de exatos 47,7%.

Esse resultado está em linha com o recuo na produção e comercialização de veículos de carga e transportes medido pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), bem como dos indicadores de atividade da economia brasileira e do segmento de transportes, mas também embute barreiras protecionistas aplicadas pela defesa comercial brasileira sobre produtos oriundos da China, Coreia do Sul, Japão, Tailândia, Rússia e África do Sul.

Aplicado em 2014, a sobretaxa sobre a importação de pneus de carga vale por cinco anos e ano a ano vem provocando quedas sucessivas nos volumes de negócios oriundos desses países. No ano passado, as importações de todos os mercados abrangidos pela barreira protecionista caíram ao menor nível desde 2011.

“De Taiwan e da África do Sul as importações estão zeradas desde 2015. Não se importam mais pneus de carga desses dois mercados”, afirma o diretor presidente da Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus (ABIDIP), Milton Favaro Junior.

“No ano passado, as importações da China caíram 47,6%, para US$ 15,2 milhões. Elas já chegaram a atingir US$ 66,8 milhões em 2011”, destaca o executivo.

Da Coreia do Sul a queda foi de 46,7%, para US$ 13,4 milhões, bem distante dos US$ 101,2 milhões registrados em 2011. Do Japão o recuo foi ainda maior, de 68,4% para US$ 12,2 milhões, ante US$ 70,5 milhões em 2011.

As importações da Argentina foram o grande destaque dessa linha de produtos, com aumento de 159,38%, para US$ 37,7 milhões, apontam os dados do MDIC.

“Quando o governo elaborou as barreiras protecionistas a esses produtos, a ideia central era a de regular e harmonizar os preços entre os pneus importados e nacionais, mas o que estamos assistindo é um bloqueio das aquisições externas sem que os preços internos atinjam a meta traçada”, diz Milton Favaro Junior.

“Se as barreiras de proteção visam equilibrar o quadro concorrencial e competitivo interno, como se explicam os sucessivos aumentos de preços praticados pela indústria local sobre os pneus de carga e isso em plena crise? O setor de transportes sofre com custos altos e o pneu é um dos maiores, ao lado do combustível. Diante disso, o governo não deveria permitir esse oligopólio que existe nas vendas de pneus de carga, dominado quase 100% pelas indústrias multinacionais instaladas no Brasil”, diz.

Levantamento da ABIDIP junto a transportadores e frotistas da Região Metropolitana de São Paulo aponta para aumentos de preços sucessivos em todas as linhas de pneus de carga entre 2015 e 2016.

Nos pneus direcionais 295/80R22,5, usados em eixos direcionais e livres de caminhões e ônibus, os ajustes chegaram a 12,45% por parte da Michelin em 2015 e mais 7,09% em 2016. Cumulativamente, houve aumento de 20,42% no período. Se você comparar com a inflação oficial – de 10,67% em 2015 e de 6,29% em 2016 – temos um acumulado de 17,63%. Ou seja, houve aumento real de 2,37% em uma única linha de pneus.

Nos pneus de tração 295/80R22,5, usados em eixos de tração de veículos de carga, a mesma Michelin promoveu ajustes de 12,46% em 2015 e de 2,54% em 2016 (cumulativamente 15,31%), enquanto um pneu importado da marca Marshall subiu 2,91% em 2015 e 2,24% em 2016 (cumulativamente 5,22%), ou seja, três vezes menos.

Outro exemplo se dá sobre o pneu 385/65R22,5 Liso (Single), usado em percursos rodoviários de média e longa distância. A Continental aplicou reajuste de 15,10% em 2015 e 7,80% em 2016 (cumulativamente 24,08%) ou 5,48% acima da inflação no período.

“Esses são apenas alguns exemplos que mostram que a busca pela harmonização de preços tencionada pelas barreiras protecionistas não funciona. Quem está sendo penalizado é o frotista, o transportador. Eles estão pagando preços acima da inflação pelos pneus que usam e isso funciona como uma cadeia. Paga-se preço mais alto e repassa-se ao frete que onera o preço do transporte e do produto transportado. É isso o que a defesa comercial em pneus de carga está acarretando ao Brasil”, diz.

Segundo Milton Favaro Junior, após a adoção das barreiras protecionistas, as importações realizadas pela maior parte das indústrias locais (no modelo de pneu de carga mais vendido no país), foram feitas com preços menores do que os praticados pelos países investigados por dumping. “Ai eu me pergunto: por que não investigam as importações das indústrias instaladas no Brasil?”, questiona.

Outro fato destacado pelo executivo é a falta de opções de pneus de carga para as montadoras nacionais de veículos pesados. Segundo a consultoria Infonecta, a Scania foi a quarta maior importadora de pneus de carga do Brasil em 2016, com US$ 11,4 milhões em aquisições, seguida pela Volvo com US$ 6,3 milhões, valores acima dos importados pela própria indústria local e por importadores independentes.

“Isso prova que a indústria local, mesmo com a crise, não tem capacidade para atender o mercado interno e ganha muito com exportação, o que é bom para o Brasil. Porém, tem que dar mais competitividade ao mercado interno, porque as importações dessas montadoras foram de pneus de marca das indústrias instaladas aqui, ou seja, importaram pneus das marcas ‘nacionais’. Isso prova que as multinacionais instaladas aqui querem dominar a produção e as importações. Através das barreiras protecionistas impostas pelo governo, a pedido da indústria local, forma-se um oligopólio e quem perde com isso? O transportador, que precisa de custo baixo para levar e trazer a produção nacional. Quem paga a conta final? O consumidor.”

Em 2016 as importações sofreram queda de 47,7%, para US$ 114 milhões e as exportações avançaram 3,04%, para US$ 370,9 milhões, refletindo um saldo comercial de US$ 256,9 milhões, o mais alto desde 2008.