May08

ANIP aponta dados falsos sobre a importação de pneus no Brasil

Entidade que defende os interesses da indústria diz que a importação de pneus industriais cresceu 72,8% no 1º trimestre. A verdade é que as importações dos pneus que podem ser classificados como industriais caiu quase 180%.

.Segundo a ANIP, a importação de pneus de carga subiu 27,26% no período. Mentira: entre os independentes ela recuou 17,43%. O que subiu foi a importação da indústria: recorde de 140,4% no período;

.O que a ANIP não diz é que a Sumitomo sozinha importa mais pneus de carga do Japão que a soma de todos os importadores independentes que trazem pneus da China;

.Outro fato que a ANIP não diz é que a Goodyear e a Pirelli foram responsáveis por 30% dos pneus de carga importados da China no 1º trimestre de 2014.

.Pirelli, Bridgestone, Michelin, Goodyear, Continental e Sumitomo importam quase tantos pneus de passeio quanto todas as importações da China: 1.370.811 importados por estes fabricantes contra 1.518.336 importados da China. Por que a indústria precisa importar tantos pneus. Ela não tem capacidade para atender a demanda interna?

Tirando a Índia, o Brasil é o segundo país mais protecionista do mundo. A constatação é da Organização Mundial do Comércio (OMC) em relatório sobre barreiras comerciais aplicadas pelas nações que integram a entidade.

Em 2013, a OMC apurou 407 barreiras comerciais impetradas pelos mais diversos países do mundo, com o Brasil participando com 39 ações antidumping, número que perdeu apenas para as 35 ações do gênero abertas pela Índia.

Índia (36 ações), Brasil (35), Estados Unidos (34) e Argentina (19) foram os países que mais ações protecionistas lançaram contra seus parceiros comerciais no ano passado, aponta a OMC, que identificou na semana passada queixas formais promulgadas por cinco governos de economias em desenvolvimento contra o governo brasileiro - um movimento que já havia sido adotado pelos governos dos Estados Unidos, Japão e países da Europa.

Até mesmo parceiros latino-americanos como o Chile, Colômbia e Peru afirmam estar preocupados com a forma pela qual o Brasil está investigando a importação e criando barreiras para a comercialização de seus produtos.

Um dos setores com maior nível de barreiras comerciais é o de pneus. Há processos por antidumping contra a importação de pneus de passeio, para veículos utilitários, caminhões, ônibus, motos e até mesmo bicicletas.

“O objetivo de uma medida antidumping visa à proteção da indústria local. Isso é extremamente válido e é papel do governo proteger sua indústria. Mas no caso dos pneus o tiro está saindo pela culatra, pois as indústrias nacionais investem muito, mas não no Brasil. Elas estão investindo em compras de pneus no exterior e acabam de bater recorde de importação”, afirma o Diretor Executivo da Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus (ABIDIP), Milton Favaro Junior.

Veja os números

  • De janeiro a março a indústria elevou importações de pneus de carga em 140,4%. No mesmo período, os importadores independentes reduziram suas importações em 17,4%;
  • No mesmo período, de cada 10 pneus de carga importados pelo Brasil, 5,1 foram pela indústria brasileira que diz produzir pneus aqui;
  • Os preços dos pneus de carga também subiram, entre 3,0% e 3,5%, com pico de até 12%. Em 2013 já haviam aumentado 12,7%;

Sabe quem mais importou?

  • ØSumitomo + 147,21%, para 110.118 pneus de carga;
  • ØMichelin: + 125,73%, para 64.094 pneus;
  • ØGoodyear: +100,66%, para 47.677 unidades;
  • ØPirelli: 269,23%, para 26.079 pneus;
  • ØBridgestone: +67,16%, para 15.151 unidades;
  • ØContinental: + 6.904,17%, para 8.405 pneus de carga.

“Eu acredito no nosso país, luto pela transparência. A ABIDIP trabalha muito para auxiliar e orientar os importadores a cumprir as regras de importação e de mercado e as leis ambientais em nosso segmento, mas não posso admitir manobras e manipulações de dados usados para confundir a população e até as autoridades do nosso país”, diz Milton Favaro Junior.


Mitos e verdades da indústria de pneus


Mito 1 - No dia 28 de abril de 2014, a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP) divulgou que “as importações de pneus industriais foram as de maior crescimento, com aumento de 72,8% no período de janeiro a março em relação ao mesmo período do ano anterior, passando de 450 mil para mais de 800 mil unidades, em decorrência das condições de competição desiguais.” 

Fonte: ANIP


A Verdade 1 – Os pneus, como qualquer outro produto, quando são importados são classificados segundo a Norma Comum do Mercosul, a NCM.

Para pneus novos existem 21 classificações diferentes (NCMs), indo de pneus de avião a pneus de bicicleta. Não existe uma NCM específica para “Pneus Industriais” – eles podem estar classificados em 12 diferentes NCMs e, portanto, não há como confirmar este dado divulgado pela ANIP sem saber, especificamente, a quais pneus ela está se referindo.

Contudo, ao se verificarem todas as classificações nas quais pneus industriais podem estar inclusas, as importações caíram de 7.046.238 pneus no primeiro trimestre de 2013 para 2.527.789 pneus no primeiro trimestre de 2014, conforme pode ser verificado no quadro abaixo. Isso reflete um recuo de 178,8% e não aumento de 72,8% como diz a ANIP.

Esses são dados públicos e podem ser acessados no site de Secretaria da Receita Federal. Não houve uma única classificação na qual as importações cresceram de 2013 para 2014, muito pelo contrário, em todas elas houve uma redução significativa.


IMAGEM 1  


Mito 2 – Segundo o informe da ANIP, de 28 de abril de 2014, “concorrência desleal e dumping também marcaram o mercado de pneus no primeiro trimestre de 2014. Os outros segmentos que mais importaram neste período, foram: carga, agrícola, industrial e terraplanagem. Quando se olha o aumento da importação de maneira geral, que foi de 0,64%, parece pequeno, porém quando se destrincha este número nota-se que, por exemplo, no caso de pneus de carga a expansão das importações foi de 27,3%”, disse o presidente da ANIP, Alberto Mayer.

Aumento de importação por segmento, segundo a ANIP:

Carga +27,26%

Agrícola +25,73%

Industrial +72,82%

Terraplanagem +132,24% 

Fonte: ANIP


A Verdade 2 – A importação de pneus industriais, terraplanagem e mineração recuou 137,2%, conforme mostra a tabela anterior. Foram importados 1.097.987 unidades entre janeiro e março deste ano contra 2.603.969 entre janeiro e março do ano passado.

Em pneus de carga, para caminhões e ônibus, importação feita pela indústria brasileira cresceu 140,40% entre janeiro e março deste ano. Bridgestone, Continental, Goodyear, Michelin, Pirelli e Sumitomo trouxeram 271.524 unidades no período, contra 158.578 unidades no primeiro trimestre do ano passado.

A importação de pneus de carga feita por importadores independentes recuou 17,43% no mesmo período de comparação. Os independentes importaram 258.883 unidades entre janeiro e março de 2014 contra 313.528 unidades entre janeiro e março de 2013.

Ou seja, os fabricantes juntos importaram mais pneus de carga no 1º trimestre de 2014 que todos os importadores independentes juntos.

Com relação à concorrência desleal, basta verificar os preços declarados nas importações de pneus 295/80 R22.5 pela Goodyear (de pneus que ela importa da China) e pela Sumitomo (de pneus importados do Japão), comparados com preços declarados por importadores independentes quando importam da China, Japão e Tailândia no 1º trimestre de 2014.


As informações são da Secretaria de Receita Federal

IMAGEM 2 

No segmento agrícola, a ANIP aponta aumento de 25,73% nas importações. Na verdade houve uma retração de 139,9% nas importações de pneus agrícolas, que somaram 106.694 unidades entre janeiro e março deste ano contra 255.498 unidades no primeiro trimestre do ano passado, conforme mostram os dados da Receita Federal.


Mito 3 – Diz a ANIP em seu informe de 28 de abril que “a principal fonte de pneus importados continua sendo a China, que respondeu por 62% do total de unidades que entraram no país, exceto duas rodas, com ampliação de 7,65% nas entradas de produtos chineses no país. Não somos contra as importações, desde que não haja concorrência desleal e os produtos sejam de qualidade, o que nem sempre acontece”, afirma o presidente da ANIP.

Aumento das importações da China por segmento, segundo a ANIP:

· Carga 64,83%

· Passeio 2,88%

Fonte: ANIP

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A Verdade 3 – Os dados do Departamento de Economia da ABIDIP mostram que as importações de pneus de carga oriundas da China e realizadas por importadores realmente cresceu, mas não os 64,83% mencionados pela ANIP, mas sim, 17,8% no acumulado do primeiro trimestre de 2014.

Foram 94.389 unidades importadas da China no período, contra 60.032 no primeiro trimestre de 2013. Este aumento é principalmente de pneus diagonais (e não radiais), já que a indústria nacional praticamente abandonou este segmento, abrindo uma lacuna para importação e, também, pneus para caminhões pequenos, segmento para o qual a indústria nacional também importa em grande quantidade.

O que a ANIP não diz é que o Japão foi a grande origem dos pneus de carga importados no período, com aumento de 23% (122.014 unidades), e que a Sumitomo/Dunlop, ao lado da Bridgestone são, em sequência, os maiores importadores de pneus do Japão.

A ANIP também esconde a informação de que a Sumitomo/Dunlop encerrou o primeiro trimestre do ano com aumento de 147,21% em suas importações de pneus de carga, contra um aumento de 67,16% da Bridgestone em igual período. A origem dessas importações? O Japão.

Outra coisa que a ANIP não diz é que apenas a Sumitomo, que importou 110.118 pneus de carga no primeiro trimestre, trouxe mais pneus que todos os importadores independentes que importam pneus da China. Foram 65.175 pneus oriundos da China, trazidos pelos independentes, contra 110.118 da Sumitomo. A Michelin também quase importou o mesmo que os independentes juntos. Ela trouxe 64.094 pneus de carga da França e Espanha no período.

A ANIP também se esqueceu de dizer que a Goodyear, que vendeu sua fábrica sucateada - de pneus agrícolas e industriais para a Titan Pneus, em São Paulo, - está robotizando a fábrica de Americana (SP). Após 40 anos de Brasil a Goodyear se convenceu da necessidade de investir em aumento da capacidade de produção, em inovar processos de produção e oferecer produtos tecnologicamente mais apropriados aos anseios da sociedade.

A ANIP também não diz que a Goodyear importa pneus de carga da China. Foram 29.267 unidades de janeiro a março de 2014 e correspondem a 28% das importações totais de pneus da China no período. Isoladamente, a Goodyear é a maior importadora de pneus de carga da China.

Pneus de passeio

Na linha de pneus de passeio a indústria aumentou suas importações em 1,57% no primeiro trimestre do ano. Foram 1.325.291 pneus importados no período. Sabe quanto foi a importação dos importadores independentes: 2.844.894 unidades, recuo de 12,91%.

Só a Goodyear aumentou suas importações de pneus de passeio em 221,17% no primeiro trimestre, seguida pela Bridgestone, com alta de 73,59% e a Sumitomo, com 14,81%.

A ANIP diz que as importações de pneus da China cresceram 2,28%. Não: a alta foi de apenas 1,13%, graças às importações realizadas por suas próprias associadas. Goodyear e Pirelli são hoje responsáveis por 30% das importações totais de pneus vindos da China.